Por que uma música traz lembranças tão rapidamente?

Uma música começa.

Pode ser durante uma viagem, enquanto você espera alguém, no rádio de casa ou no carro, entre um compromisso e outro. Bastam algumas notas para que alguma coisa mude de lugar por dentro.

De repente, você não está apenas ouvindo aquela canção.

Lembra de uma pessoa. De uma conversa. De uma rua. De uma fase da vida. De um verão que parecia distante. Às vezes, a lembrança chega antes mesmo de você identificar conscientemente o que está ouvindo.

Por que isso acontece?

A ciência já encontrou algumas respostas. Mas a parte mais interessante talvez esteja justamente naquilo que ela ainda não consegue explicar por completo.

O fenômeno tem um nome

Pesquisadores chamam de memórias autobiográficas evocadas por música — ou MEAMs, na sigla em inglês — as lembranças de acontecimentos da própria vida que surgem quando uma pessoa ouve uma música.

O fenômeno foi investigado diretamente por Petr Janata, Stefan Tomic e Sonja Rakowski em um estudo publicado em 2007. Os pesquisadores analisaram lembranças despertadas por músicas e observaram a importância de fatores como familiaridade e envolvimento emocional. Também encontraram muitas lembranças que surgiam sem que a pessoa estivesse tentando deliberadamente recordar alguma coisa.

Isso faz diferença.

Existe uma diferença entre procurar uma lembrança e uma lembrança aparecer.

Quando tentamos recordar o nome de alguém ou recuperar uma cena específica, fazemos uma busca mental. Quando uma música traz de volta uma situação sem que estivéssemos pensando nela, a experiência é diferente.

A canção funcionou como uma pista.

A música não guarda a lembrança. Ela guarda o caminho de volta.

Imagine que determinada música tenha acompanhado uma fase importante da sua vida.

Ela estava tocando quando você conheceu alguém. Ou durante viagens frequentes. Talvez fizesse parte da rotina de uma determinada época, quando determinados lugares, pessoas e acontecimentos estavam presentes ao mesmo tempo.

A música não precisa conter a lembrança.

Ela foi associada a ela.

Com o tempo, aquela combinação de som, situação, pessoas, emoções e circunstâncias passa a fazer parte da história daquela canção para você.

Quando a música reaparece, pode funcionar como uma chave associativa — uma metáfora para explicar o fenômeno, não um termo científico literal.

A pista sonora encontra associações construídas ao longo da experiência pessoal e pode favorecer a recuperação de uma lembrança autobiográfica.

É uma das razões pelas quais a mesma música pode significar coisas completamente diferentes para duas pessoas.

Para uma, é apenas uma canção conhecida.

Para outra, é uma determinada noite, uma determinada viagem ou uma determinada pessoa.

A emoção ajuda a explicar a força da associação

A relação entre música, emoção e memória também aparece na pesquisa.

Em um estudo publicado em 1999, M. D. Schulkind, L. K. Hennis e David C. Rubin observaram a relação entre emoção e memória ao estudar a lembrança de músicas populares. Entre os participantes mais velhos, as músicas da juventude receberam avaliações emocionais mais altas e foram melhor lembradas em alguns aspectos. Os pesquisadores também encontraram uma correlação positiva entre emoção e memória, especialmente nesse grupo.

Há uma ressalva importante: naquele estudo, os trechos musicais não produziram muitas lembranças autobiográficas de acontecimentos específicos. Isso impede transformar o resultado em uma regra simples como “quanto mais emocionante a música, mais lembranças ela sempre produz”.

A relação é mais interessante do que isso.

Uma canção pode ser conhecida, emocionalmente significativa e repetidamente associada a determinadas experiências. Essa combinação aumenta as chances de ela se tornar uma pista particularmente eficaz para a memória.

E por que parece acontecer tão depressa?

Aqui está a parte em que a pergunta fica mais difícil.

Sabemos que memórias autobiográficas podem surgir involuntariamente. Também sabemos que a música é uma pista especialmente relevante para esse tipo de lembrança.

Uma revisão sistemática publicada por Alexander P. Kaiser e Dorthe Berntsen encontrou, na literatura analisada, que memórias autobiográficas evocadas por música eram geralmente específicas e recuperadas rapidamente, sugerindo pouco esforço de recuperação. A revisão também apontou a importância da familiaridade com a música.

Isso ajuda a entender a sensação de rapidez.

Quando a recuperação é involuntária, não existe necessariamente uma longa procura consciente pela lembrança. A música aparece, uma associação é reconhecida e a memória pode surgir como parte da experiência.

Mas isso não significa que a ciência já tenha identificado um mecanismo capaz de explicar exatamente a distância entre a primeira nota e o instante em que uma determinada lembrança aparece.

Não há razão para transformar essa lacuna em uma explicação sobre uma suposta “área da memória” sendo acionada instantaneamente.

A experiência pode parecer imediata sem que o mecanismo completo dessa rapidez esteja estabelecido.

E reconhecer esse limite é parte da resposta.

Nem toda música abre a mesma porta

Se toda música funcionasse como gatilho de memória, provavelmente o fenômeno seria muito menos pessoal.

Não é o que as pesquisas indicam.

A familiaridade importa. Uma música que nunca fez parte da sua vida dificilmente terá o mesmo conjunto de associações que uma música ouvida repetidamente durante uma fase importante.

Mas familiaridade, sozinha, também não explica tudo.

A história pessoal conta.

Em um estudo de 2022, Amy M. Belfi e colaboradores compararam memórias autobiográficas evocadas por música com aquelas evocadas por imagens de pessoas famosas. As memórias relacionadas à música apresentaram maior riqueza de detalhes episódicos e perceptuais, e essa diferença não desapareceu quando os pesquisadores compararam especificamente lembranças recuperadas de maneira involuntária.

A música, portanto, não parece funcionar apenas porque “pega a pessoa de surpresa”.

Há características próprias do estímulo musical e das associações construídas com ele que também importam.

Memória não é a mesma coisa que nostalgia

Existe ainda uma distinção que costuma desaparecer quando falamos sobre esse assunto.

Memória autobiográfica é a lembrança de algo relacionado à própria vida.

Nostalgia é uma experiência emocional relacionada ao passado.

Uma música pode trazer uma lembrança sem produzir nostalgia. Pode lembrar uma situação difícil, uma perda ou um momento que provoca tristeza.

Da mesma forma, uma experiência nostálgica pode envolver uma sensação ampla de retorno ao passado sem depender de uma lembrança autobiográfica específica.

As duas experiências podem se encontrar, mas não são sinônimas.

Algumas notas podem levar muito longe

Talvez seja isso que torne a relação entre música e memória tão particular.

Uma fotografia mostra uma cena.

Um lugar pode recuperar uma sensação.

Uma conversa pode trazer alguém de volta à lembrança.

Uma música pode fazer tudo isso enquanto continua acontecendo no presente.

O rádio toca. O caminho continua. O painel permanece aceso. E, por alguns instantes, uma parte da atenção encontra uma época que já passou.

A ciência consegue explicar uma parte desse caminho: familiaridade, associação, emoção, contexto e recuperação involuntária ajudam a transformar uma canção em uma pista poderosa para lembranças autobiográficas. Estudos também mostram que essas memórias podem ser particularmente ricas em detalhes.

Mas a pergunta sobre por que uma lembrança pode parecer chegar quase no mesmo instante em que reconhecemos a música ainda não tem uma resposta única e definitiva.

Talvez não seja necessário que tenha.

Porque, quando aquela canção começa, a lembrança não precisa esperar que alguém a procure.

Ela simplesmente encontra o caminho de volta.

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